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Entrevista com Ricardo Kanji

27 de novembro de 2009

O professor de flauta da Tom Jobim – Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP) Ricardo Kanji realizou a master class “Períodos barroco e clássico: articulação, acentuação, expressão, ornamentação e retórica” no dia 25 de novembro, no auditório da unidade Luz da Escola. Aos alunos presentes, ele falou sobre a interpretação barroca, as escolas francesa e italiana, os diferentes tipos de movimentos e de danças, como allemande, courrante, sarabande e bourré e das maneiras como elas podem ser abordadas. O flautista, que especializou-se na interpretação da música barroca e clássica ao longo dos 25 anos de sua estada na Holanda e  foi professor no renomado Conservatório Real de Haia de 1973 a 1995, venceu, ao lado da cravista Rosana Lanzelotte, o prêmio Bravo 2009 como Melhor Gravação do Ano com o CD Neukomm no Brasil. Nessa entrevista ele fala sobre a importância da coerência histórica na interpretação da música antiga, sobre seu desenvolvimento na Holanda e da importância da conquista do prêmio Bravo e do compositor Sigismund Neukomm.

No dia 24 de novembro você acompanhou o recital de música antiga. Qual foi a sua impressão?

Foi muito boa. Fiquei contente em ver o desenvolvimento dos alunos. É importante para eles conhecerem o que os outros estudantes estão desenvolvendo com seus professores. Eventos como esse estimulam a atividade de música de câmara, pois incentiva os estudantes a ensaiar e preparar determinado repertório para uma apresentação.

No recital, sua sobrinha Isabel Kanji tocou cravo. A música é uma tradição em sua família?

O meu irmão, Milton Kanji, sempre quis ser músico profissional, mas o meu pai não deixou. Naquela época, o meu pai considerou que ele deveria escolher uma profissão “de verdade”, segura, o que levou meu irmão a estudar geologia. Hoje ele é professor doutor nessa área, especialista em mecânica das rochas. No entanto, seus três filhos são músicos profissionais. O Alexandre, seu filho mais velho, toca violino, a Isabel é pianista e cravista e o Alberto é violoncelista. Tanto o Alexandre como o Alberto estão na Holanda, onde estudaram e agora trabalham, seguindo um pouco o meu caminho.

Antes de você algum parente desenvolveu carreira musical?

O meu pai gostava bastante de música e escutava muitas coisas, assim como o meu irmão. Fui estimulado nesse sentido, mas sinto ter um talento especial para a música. A professora de piano Lavínia Viotti foi uma pessoa muito especial em minha vida, pois me deu uma sólida formação. No final das aulas de piano ela sempre cantava para mim canções de Schumann e de Schubert.

Foi nas aulas da professora Lavínia Viotti que você escolheu a flauta como o seu instrumento?

Ela uma vez me mostrou uma flauta e, imediatamente, me encantei pelo instrumento. No dia seguinte, ela me disse que poderíamos usar 15 minutas da aula de piano, que durava uma hora, para estudar flauta. Logo na primeira aula essa equação já se inverteu, com 45 minutos para a flauta e 15 minutos para o piano. Depois, acabei largando o piano, porque eu não levava jeito para esse instrumento, parecia que eu tinha dez polegares. Já na flauta eu encontrei muita facilidade e, em duas semanas, estava tocando melhor do que a minha professora.

Qual a função de uma master class?

A master class é uma aula aberta, na qual são tratados assuntos específicos. No meu caso, a interpretação da música pré-romântica, antiga. 

Você morou por 25 anos na Holanda. Qual foi a importância desse fato em seu desenvolvimento musical?

Estudei brevemente na Holanda e depois fiquei no país, trabalhando na vaga de meu professor que me convidou a dar aulas em seu lugar no Conservatório Real de Haia, pois estava deixando o seu emprego depois de dez anos para poder dedicar-se à sua carreira. A minha ideia inicial era ficar um ou dois anos na Holanda, mas acabei permanecendo 25 anos por lá.

Nessa época, você se especializou na interpretação da música antiga?

Trabalhei com os melhores músicos da cena de música antiga, na qual me especializei. Na Europa, esse movimento começou há cinquenta anos. Na Holanda, eu e meus professores estudamos muito os tratados, os métodos dos séculos XVII e XVIII. Pesquisamos como a música era feita nessa época para entender o que eles achavam importante em termos de acentuação e de interpretação e conhecer os seus gostos pessoais. Fomos reunindo todas essas informações e desenvolvemos uma forma de tocar baseada nesses conceitos completamente diversa da maneira romântica de se tocar.

Por meio dessa pesquisa, vocês perceberam um descompasso na maneira romântica de interpretar as obras dos períodos barroco e renascentista?

Hoje em dia, a educação musical em conservatórios e escolas é baseada na escola romântica, que é a nossa última tradição. No entanto, se você toca Bach ou Vivaldi com um sotaque romântico, irá soar estranho. É como ler Olavo Bilac com um sotaque alemão: você entende que é Olavo Bilac, mas algo parece estar fora de lugar. O mesmo acontece se interpretarmos obras de Bach como faríamos com peças de Wagner. Dessa forma, estaríamos desalinhados em relação ao tempo, à articulação e acentuação. Essas são questões com as quais devemos nos preocupar. Se você interpreta a música barroca em seu devido estilo, ela ganha força, vida, ganha uma nova dimensão. Em suma, ela deixa de ser chata. O que é importante é que vejamos essa música como uma música moderna, como se ela tivesse sido composta ontem. Encarar, por exemplo, o que o Telemann escreveu no século XVIII como se fosse algo novo, o que é uma atitude moderna. É um exercício histórico que começamos a fazer 50 anos atrás. 

Depois de 50 anos, muitos intérpretes seguiram por este caminho?

A programação de concertos de música antiga na Europa e no restante do mundo é muito grande atualmente. Orquestras sinfônicas já não ousam tocar uma Sinfonia de Mozart de qualquer jeito. A vida musical mudou muito com esse desenvolvimento.

Em sua concepção, para interpretar a música antiga é preciso utilizar instrumentos de época?

Os instrumentos de época são um grande auxílio, porque a sonoridade que possuem ajuda muito a se aproximar da interpretação que foi concebida originalmente. Eles podem servir de inspiração para o músico tocar de acordo com o que foi criado. Como em uma Sonata para flauta de Bach: se você usar uma flauta antiga terá mais chances de chegar perto daquilo que o compositor pensou do que tocando com uma flauta moderna, que também chama flauta, mas é um instrumento completamente diferente.  

Como foi para você receber, ao lado da cravista Rosana Lanzelotte, o prêmio Bravo 2009 de Melhor Gravação do Ano com o CD Neukomm no Brasil (Biscoito Fino)?

É sempre muito agradável ter um reconhecimento, se bem que não é para isso que nós trabalhamos. Surgiu a ideia de fazer esse disco com peças para piano e cravo de Sigismund Neukomm (1778-1858), que é um compositor austríaco pouco conhecido, e a Rosana se tornou uma especialista no assunto, tendo inclusive escrito um livro sobre ele que será lançado em São Paulo em dezembro. Tudo começou quando a Rosana decidiu gravar as sete últimas palavras de Cristo de Haydn, em uma versão para teclado, que ela fez no cravo sobre arranjo escrito por Neukomm. Ela pesquisou a música desse compositor e encontro um grande acervo de sua obra na Biblioteca Nacional de Paris, onde permaneceu imersa por muitos dias. Neukomm foi um compositor muito importante para nós brasileiros. Ele passou cinco anos de sua vida no Rio de Janeiro, entre 1816 e 1821, quando a família real aqui estava. No Brasil, ele escreveu 49 obras, para diversas instrumentações, como música de câmara, banda, orquestra e algumas peças para flauta e piano. Essas foram as peças que nós gravamos. Esse disco possui uma importância nacional, porque é o registro de um repertório muito especial e até agora desconhecido. Neukomm possui cerca de 2000 composições. Seu professor, Joseph Haydn (1732-1809), dizia que Beethoven era o seu melhor aluno, mas o predileto era Neukomm.

Durante esse período no Brasil, qual foi a influência exercida por Neukomm?

Neukomm foi uma pessoa muito querida por todos, que tinha amigos influentes entre a nobreza e membros da diplomacia, o que contribuiu para a sua vinda ao Brasil. Aqui, ele foi professor de membros da família real, como o príncipe D. Pedro, e de vários músicos importantes, como o compositor do hino nacional Francisco Manuel da Silva (1795-1865). É curioso notar que a Fantasia para Flauta, escrita por Neukomm em 1823 em Paris, possui em certos momentos uma melodia que lembra muito o nosso hino nacional, composto em 1831. Portanto, talvez o hino nacional brasileiro tenha sido inspirado por um compositor austríaco.