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Da Orquestra Jovem do Estado para a Philharmonia Orchestra

24 de janeiro de 2018

O percussionista brasileiro Rubens Celso Lopes, ex-bolsista da Orquestra Jovem do Estado, foi aprovado para a Philarmonia Orchestra de Londres. O jovem músico de 26 anos concorreu com mais de 180 outros percussionistas e foi o primeiro brasileiro a ingressar na orquestra inglesa por meio de concurso.

Em entrevista concedida para a EMESP Tom Jobim, o percussionista fala sobre a sua formação, desde o bacharelado na Unesp e a passagem pela Orquestra Jovem do Estado, até os dois mestrados de percussão e improvisação generativa no Conservatório Superior de Música e Dança de Paris.

Vencedor da primeira edição do Prêmio Ernani de Almeida Machado em 2012, Rubens conta a sua experiência e aborda os desafios e as oportunidades de estudar no exterior. Confira:

EMESP Tom Jobim – O que a aprovação em uma orquestra como a Philharmonia de Londres representa para a sua carreira?

Rubens Celso Lopes – Entrar para a Philharmonia Orchestra representa o resultado dos anos de estudo em que me dediquei seriamente à música e, particularmente, ao repertório orquestral com esse objetivo. Será com certeza um período de trabalho de alto nível, afinal essa é uma das melhores orquestras do mundo. O processo seletivo foi intenso. Foram 189 percussionistas na primeira fase e 150 convocados. O repertório do concurso chegou três semanas antes e não havia somente o repertório tradicional dos concursos, mas também trechos de música nova. Eu procurei aproveitar essas três semanas de maneira inteligente e profissional, usando o que eu já vinha estudando e, também, a experiência de outros concursos que participei. O resultado foi mais que positivo.

EMESP Tom Jobim – Quais são seus próximos planos após ser aprovado na Philharmonia Orchestra?

Rubens Celso Lopes – Essa orquestra tem um processo diferente do que estou acostumado para contratar definitivamente um músico. Agora que ganhei o concurso eu estou no período trial, em que realizo as sessões que a orquestra me propõe. Depois, se for da vontade deles, eu passarei para o período probatório e, por fim, serei titularizado. O processo é longo e incerto, mas tenho consciência de que apesar dos dois mestrados e muita prática orquestral com as melhores orquestras da França, tenho 26 anos ainda e tempo e energia para muitas aventuras. Na verdade, meu único plano é ir para lá e ser o mais profissional que eu puder em todos os projetos que eu fizer parte, continuando a estudar o repertório orquestral, assim como a bateria, os instrumentos brasileiros, o baixo elétrico, a improvisação, etc. Com esse pensamento eu já consegui fazer bastante coisa e tenho certeza de que terei bons resultados.

EMESP Tom Jobim – Quando e como surgiu o interesse em aprender música, e em que momento percebeu que essa seria a sua profissão?

Rubens Celso Lopes – Não sei ao certo quando surgiu, mas foi na infância. Nesse período eu tive vários instrumentos de brinquedo, como uma bateria, um clarinete e um acordeão. Aos nove, eu aprendi teoria por meio do piano e do sintetizador. Aos 15, eu já estava trabalhando profissionalmente como baterista. Sobre essa ser minha profissão na verdade eu nunca pensei direito sobre isso, quando percebi já tinha acontecido. Na verdade, quase como falar, foi sempre muito fácil para mim passar várias horas com os instrumentos e essas horas sempre me deram resultados, até que um dia me falaram que eu era profissional. O que eu acho curioso é a separação que as pessoas fazem da música clássica da música popular. Para mim, tudo o que faço é baseado na precisão rítmica, na escuta e na técnica, só o que muda é o estilo, mas sei que podemos dominar diferentes estilos se nos empenhamos para isso. Desse modo, atualmente sou conhecido como um profissional de música clássica, mas na verdade sempre ouvi muito jazz e música contemporânea.

EMESP Tom Jobim – Qual foi a importância da Orquestra Jovem do Estado na sua formação?

Rubens Celso Lopes – Minha formação orquestral foi toda com a Orquestra Jovem do Estado. Eu vim de um universo popular (sempre toquei bateria) até entrar na Unesp. Eu não sabia tocar percussão até entrar na faculdade, pois eu não tinha instrumentos ou instrução no interior onde eu morava, mas o júri que me viu tocando deve ter enxergado algum potencial e acabou me aprovando. Depois do contato com a música erudita e, principalmente, com a música contemporânea, eu entrei na Orquestra Jovem no ano em que ela foi reformulada e foi nela que aconteceu toda a minha formação orquestral que me deu muita bagagem para chegar na França e trabalhar com as maiores orquestras de lá. Eu percebi que na França as oportunidades para um jovem tocar regularmente com orquestras são menores, diferente da Alemanha, por exemplo, que tem os programas de estágio em orquestra.

EMESP Tom Jobim – Em 2012, na Orquestra Jovem do Estado, você venceu o Prêmio Ernani de Almeida Machado. De que forma esse prêmio contribuiu para o seu desenvolvimento profissional?

Rubens Celso Lopes – Depois que eu ganhei o prêmio, me apresentei no Conservatório de Paris e consegui passar pelo processo seletivo. Meus dois primeiros anos em Paris seriam impossíveis sem esse prêmio. Aluguel, alimentação, transporte, material do curso, etc. Tudo isso foi custeado pelo prêmio durante um bom tempo.

EMESP Tom Jobim – O que representou para você ser o primeiro percussionista brasileiro a ingressar no Conservatório de Paris?

Rubens Celso Lopes – Isso honestamente não foi uma coisa boa para mim. Tudo o que eu fazia era tido como uma coisa de “brasileiro”, a maneira como estudo, o repertório que toco, etc. Eu não estava me sentindo muito em casa, mas sim um “estranho”. Como outros brasileiros não passaram pela percussão eu acabei tendo que explicar e mudar um pouco essa visão de que todo brasileiro é especialista em samba, adora futebol, é machista, mora na favela. Senti esse peso até o último ano do Conservatório, quando realizei a última prova. Agora, aparentemente, eu sou o primeiro percussionista brasileiro a entrar em uma orquestra inglesa por meio de um concurso. Vamos ver como será, mas dessa vez me sinto mais preparado para tocar pandeiro, falar de Gilberto Gil, Carmen Miranda, Elis Regina, Neymar.

EMESP Tom Jobim – Como foi a sua experiência no Conservatório de Paris?

Rubens Celso Lopes – Sobre o Conservatório de Paris eu posso resumir todos os quatro anos em “aprender a cantar o que toco” e “aprender a ouvir”. Não somente ouvir música, mas me ouvir tocando e ouvir os outros enquanto toco. Todo o resto, como precisão rítmica, afinação e frase, vêm dessas duas coisas. Para os alunos que estão em dúvida sobre onde estudar, eu diria para escolher uma escola onde haja alunos de alto nível e motivados para dar o máximo de si, pois o segredo são os alunos e não os professores. Foi assim no Conservatório de Paris e o que acontece é que os resultados das apresentações são sempre comparados com os resultados dos melhores alunos que, por vezes, são realmente geniais (leitura perfeita, super ouvido, aprendizagem muito rápida, memória, etc.). Pode ser competitivo (e realmente é), mas eu vi de perto como o nível torna-se extremamente alto, pois cria-se um hábito de dar o melhor de si, uma certa pressão para que seja assim e, pensando bem, eu gosto disso. Tem muitas pessoas que pensam na música como uma expressão espontânea, algo prazeroso, fácil e tranquilo que você faz quando vem a inspiração, mas eu acredito que o processo é muito duro e, às vezes, quanto mais difícil o processo, maior o prazer do resultado, de estar no palco e tocar para um público. No Conservatório eu aprendi a subir rápido aquela escada que precisamos subir para preparar qualquer obra, depois parece que em qualquer projeto que fazemos as coisas são bem mais fáceis.